Óstraco judeu do século V a.C. revela uma antiga maldição contra ladrões
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Óstraco da Maldição de Elefantina. Imagem de MDPI (CC - BY).
Durante o período Aquemênida, uma extraordinária comunidade Yahwista (Javista) habitou a ilha de Elefantina, no rio Nilo, em frente à atual Assuã, no Egito. Os adoradores de Javé (javistas) chegaram à ilha vindos da Palestina, provavelmente em meados do século VI a.C., e ergueram um templo – com sacrifícios, sacerdotes e altar. Este templo foi dedicado a Yhw(h); Tetragrama do nome próprio de Deus no hebraico bíblico (יהוה).
Alguns dos líderes da comunidade na ilha gastaram recursos significativos para a construção do templo e eram conhecidos como “sacerdotes de Yhw”. Tanto homens quanto mulheres tinham nomes teofóricos baseados nos seus e arrecadavam fundos para o serviço.
Quando comparada com o Yahwismo no texto bíblico, esta comunidade egípcia pode parecer aparentemente herética. Entretanto, os pesquisadores afirmam que isso é um engano. Segundo o teólogo e historiador alemão do Antigo Testamento, Reinhard Gregor Kratz, a exceção é a Bíblia e não Elefantina. O povo judeu do Egito “provavelmente tinha muito mais em comum com o Israel histórico da era pré e pós-exílio na Palestina do que os judeus bíblicos”. Este tema tem sido calorosamente debatido desde que os textos do arquivo de Elefantina foram publicados pela primeira vez em 1903.
O Óstraco da Maldição de Elefantina
Entre os textos antigos de Elefantina está um documento particularmente fascinante, que inclui uma referência enigmática a Byt Yhh, “a casa de Yhh” – o templo de Yhw na ilha de Elefantina – com uma grafia alternativa do nome divino Yhw. O texto aparece em um óstraco paleograficamente datado do início do século V a.C., descoberto em Elefantina, em 1925.
Um total de 12 palavras foi escrito neste óstraco, que tem cerca de 4,5 cm de altura e 9 cm de largura, escrito exclusivamente na sua côncava.
Após uma análise recente no Óstraco da Maldição de Elefantina, pesquisadores sugerem que as duas palavras finais “Para/por/em nome de Slwh” podem ter sido escritas por uma caligrafia diferente ou, pelo menos, por uma nova ferramenta.
Notação:
{|} Escolha de leituras ambíguas.
/ Escolha de traduções ambíguas.
⸢ ⸣ Texto danificado.
Texto do Óstraco da Maldição de Elefantina:
חזו כתוני זי
שבקת בית בית
יהה אמרי לאריה
{וי|יח}רמה על סלו⸢א⸣ה
Tradução:
Eis a minha túnica que
deixei na casa, casa de
Yhh, ordene ao Leão/Urias?
[e] que ele a consagre. Para/por/em nome de Slw⸢ʾ⸣h
O texto deste óstraco parece ter sido cuidadosamente composto como um encantamento e foi possivelmente considerado um “texto padrão” para o seu propósito. Ele foi escrito usando um conjunto relativamente complexo de artifícios poéticos e, portanto, não é um simples relato de um item depositado no templo de Yhw(h). Alguns pesquisadores e estudiosos acreditam que o gênero de “defixiones in fures” se originou nos círculos levantinos, cananeus ou Yahwista.
Este óstraco é o único registro direto conhecido de um ritual ligado a um templo Yahwista. Provavelmente, rituais semelhantes tenham sido realizados em outros locais de culto yahwistas, como Jerusalém e Monte Gerizim.
Defixiones in fures (Maldições contra ladrões)
O texto do óstraco foi definido por Henk Versnel como gênero de “oração por justiça” e, mais especificamente, em uma subcategoria dessas maldições conhecidas como “defixiones in fures” (“Maldições contra ladrões”). Esse tipo de maldição era comumente escrita em chumbo, mas não exclusivamente.
Textos de maldições em óstraco estão praticamente anexados a um templo e foram ali colocados e provavelmente expostos para que o público pudesse ver. É possível que o Óstraco da Maldição Elefantina tenha sido exibido no tempo Yahwista daquela ilha.
Geralmente, as maldições tinham como objetivo transferir os bens roubados para a propriedade da divindade que ficaria irritada com o roubo e perseguiria o criminoso rigorosamente. Essa “transferência” de bens para Deus tornava um ladrão comum e um ladrão blasfemo de templos.
No caso do Óstraco da Maldição de Elefantina, as defixiones in fures diferem da maioria das outras maldições porque tendem a nomear o indivíduo roubado, neste caso, a mulher Slwʾh. Peças de vestuário são comuns nestas maldições. Este óstraco menciona especificamente que o item roubado – a túnica – é šbq, “deixado” no templo da divindade Yhw para ser consagrado a ele e por ele. O ritual é realizado por uma sacerdotisa que é instruída a comandar “o Leão” para consagrar a túnica. Yhw é referido como “o Leão”, refletindo sua majestade e senso de vingança.
No entanto, há exemplos em que o objeto roubado é consagrado/dedicado a um sacerdote e não a uma divindade, como no caso de uma tábua de bronze da Calábria do século III a.C., abrindo a possibilidade distinta de que um indivíduo chamado Urias seja referenciado no Óstraco da Maldição Elefantina em vez de “o Leão”.
O texto da maldição Elefantino tem impressionantes semelhanças com outros do mundo greco-romano de cerca de dois ou três séculos depois.
O Óstraco da Maldição de Elefantina foi produzido em um contexto distintamente Yahwista, em uma comunidade com origens israelita/Reino de Israel. Existem outros exemplos de fontes Yahwista relacionando maldições e itens roubados. Na Bíblia, em Juízes 17:1–5, há uma história que se passa no Monte Efraim, onde um objeto consagrado a Yhw(h):
1 E havia um homem do monte Efraim cujo nome era Mica.
2 E ele disse à sua mãe: Os mil e cem shekels de prata que foram tirados de ti, sobre os quais tu também amaldiçoaste e falaste nos meus ouvidos, eis que a prata está comigo; eu a tomei. E a sua mãe disse: Abençoado sejas tu da parte do SENHOR, meu filho.
3 E quando ele tinha restituído os mil e cem shekels de prata à sua mãe, sua mãe disse: Dediquei totalmente a prata da minha mão ao SENHOR para o meu filho, para a confecção de uma imagem esculpida e de uma imagem fundida; agora, portanto, eu a restituirei a ti.
4 Porém, ele restaurou o dinheiro à sua mãe; e a sua mãe tomou duzentos shekels de prata, e os deu ao fundidor, que deles fez uma imagem esculpida e uma imagem fundida; e elas estavam na casa de Mica.
5 E o homem Mica tinha uma casa de deuses, e fez um éfode, e terafins, e consagrou um dos seus filhos, que se tornou o seu sacerdote.
Acredita-se que esta passagem, assim como o resto do epílogo do livro de Juízes, pode ter sido escrita aproximadamente na mesma época em que o Óstraco da Maldição de Elefantina foi escrito.
Outro paralelo pode ser observado em Malaquias 3:8–10:
8 Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais. Mas vós dizeis: Em que te roubamos? Em dízimos e ofertas.
9 Vós sois amaldiçoados com uma maldição; pois vós mesmos me roubastes, toda esta nação.
10 Trazei todos os dízimos para o armazém, para que haja alimento na minha casa, e provai-me agora com isto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e derramar sobre vós uma bênção, que não haverá espaço suficiente para recebê-la.
Esses paralelos bíblicos mostram que Yhw(h) era percebido como alguém que protege os inocentes contra ladrões e assaltantes e a quem se pode consagrar um item roubado.
Yhw(h) como um Leão
Se na terceira linha do texto no Óstraco da Maldição de Elefantina o significado de ʾryh (אריה) se referir a Yhw(h), estará em concordância com a imagem comum de Deus entre os yahwistas da época. Essa imagem é onipresente na Bíblia Hebraica.
A imagem de Yhwh como um leão também é retratada em impressões de selos de Judá do período persa e em uma alça de um vaso de Ramat Rahel, que mostra um leão com um disco solar sobre a cabeça.
Mulheres na liturgia Yahwista
Um aspecto que chama a atenção no Óstraco da Maldição de Elefantina é o fato de que – como parte da execução da maldição – uma mulher anônima deve comandar a divindade Yhw, para consagrar a túnica usada no ritual. Esta mulher possivelmente fazia parte do grupo de culto de alto escalão do templo – certamente uma sacerdotisa.
Na passagem sobre a “serva de Yhw”, lḥnh zy Yhw (לחנה זי יהו), uma mulher egípcia Tapemet que era casada com um homem lḥnh zy Yhw, chamado Ꜥ Anani, filho de Ꜥ Azarias. Sobre o significado desta designação, os pesquisadores explicam que ainda não está claro. Eles sugerem que ela pode ser entendida como “esposa de um servo do templo” – era uma prática egípcia referir-se à esposa do pessoal do templo pelo mesmo título que o marido dela.
Os papéis de gênero ao longo da história e geografia egípcias eram complexos e extremamente variados e não devem ser vistos por meio de um prisma moderno e demasiado simplista do patriarcado. Por exemplo, ḥmt-nṯr (não deve ser interpretado como “esposa de deus”, mas como o feminino de ḥm-nṯr “servo de deus”) é o cognato exato de lḥnh zy Yhw e indica uma sacerdotisa.



