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Túmulo neopúnico de Zita, na Tunísia, revela a prática de sacrifícios de bebês e crianças?

  • há 3 dias
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Túmulo neopúnico de Zita, na Tunísia, revela a prática de sacrifícios de bebês e crianças? - História em Destaque

Fotografia mostrando parte do tofete em Zita (imagem de Brett Kaufman).


A maioria dos estudos de tofetes (santuários fenícios e púnicos usados para o sepultamento de bebês e crianças cremados) se concentra na natureza sacrificial desses locais. Um novo estudo publicado na revista Antiquity analisou 12 indivíduos no tofete do sítio arqueológico neopúnico de Zita. Os pesquisadores ressaltam que os ritos funerários foram realizados com cuidado e sem indícios de sacrifício, além das evidências osteológicas que sugerem que a vida em Zita era complicada e que problemas sistêmicos de saúde podem ter contribuído para as mortes dos bebês e crianças.


A simples existência de tofetes, onde bebês e crianças eram cremados, colocados em urnas e sepultados ritualmente, é considerada evidência concreta de sacrifício humano por alguns estudiosos. Por outro lado, outros recomendam cautela na interpretação desses locais.  


A reconstrução dos costumes funerários fenício-púnicos pode ser auxiliada por textos e inscrições clássicas. No entanto, pesquisadores ressaltam que variações nos rituais entre comunidades podem não ter sido registradas em relatos históricos, além do viés inerente a tais registros abrir espaço para interpretações conflitantes de tofetes.


Os 12 bebês e crianças cremadas foram encontrados no tofete de Zita – um campo de urnas em um monte urbano habitado do século V a.C. até 450 d.C.


O tofete de Zita, na Tunísia, compreende um monte urbano de cerca de 340 mil metros quadrados, situado ao longo de uma antiga rota comercial de Cartago, até Lepcis Magna, na Líbia, e sua ocupação data de cerca de 425 a.C. a 450 d.C. Escavações arqueológicas revelaram 24 urnas intactas – das quais somente 12 foram analisadas. As urnas estão associadas a estelas verticais, encontradas superficialmente, a bacias rebocadas e estruturas em forma de poço contendo ossos queimados, unguentários e tigelas.


Análises no conjunto de cerâmica indicam que os sepultamentos foram depositados por volta de 50–30 a.C. até cerca de 100 d.C. Escavações e coleções históricas de superfície indicam que o tofete foi preservado até a era romana, com a adição de iconografia e o que pode ser inscrições latinizadas de antigas divindades.


Os pesquisadores analisaram três covas, ossos e fragmentos ósseos de nove urnas, todos representando sepultamentos secundários de cremação. Urnas completas foram analisadas por radiografia para identificar a localização dos ossos.


Segundo os pesquisadores, as alterações térmicas limitaram alguns “diagnósticos diferenciais de patologias e traumas, mas o material esquelético suficiente permaneceu para permitir avaliações com base na distribuição das lesões”.


Foram identificados os restos mortais de 7 bebês (com menos de 2 anos na época da morte) em urnas, duas crianças (de 2 e 12 anos na época da morte) em urnas, duas crianças em covas e um indivíduo possivelmente com 12 anos em uma cova. Com base nos esqueletos presentes e na ausência de duplicação de tipo ósseo, os pesquisadores afirmam que todos os sepultamentos continham somente um indivíduo.


Os elementos esqueléticos foram minuciosamente coletados das piras funerárias e os depósitos continham corpos relativamente completos de indivíduos.


As alegações arqueológicas, etnográficas e históricas de sacrifício infantil são frequentemente associadas a contextos que apresentam alta mortalidade infantil. Negligência, afogamento, sufocamento ou trauma são algumas das maneiras pelas quais bebês foram mortos ou descartados, com base em registros históricos. No entanto, poucas dessas situações deixaram vestígios arqueológicos ou evidências diretas nos ossos. Segundo os pesquisadores, não foram encontradas evidências de trauma ou violência no momento da morte nos restos mortais dos bebês e crianças de Zita. Eles afirmam, entretanto, que identificaram evidências de saúde precária, o que provavelmente contribuiu para suas mortes.

 

O estudo ressalta a boa preservação dos ossos cremados, que permitiu a avaliação de condições patológicas. “Os indivíduos que morreram jovens tiveram problemas de saúde com duração e intensidade suficientes para deixar marcas em seus esqueletos”, diz o estudo.


Dos indivíduos analisados, sete bebês e três crianças apresentaram alterações patológicas nos ossos compatíveis com escorbuto, anemia e estresse fisiológico ou infecção.


Se os bebês e crianças eram sacrificados em Zita, os pesquisadores dizem que crianças doentes seriam sacrificadas preferencialmente em relação às saudáveis. Entretanto, eles explicam que evidências conclusivas de sacrifício não foram encontradas.


As urnas com restos mortais humanos cremados representam somente uma etapa do processo funerário em tofetes. O estudo também revelou que a colocação das cinzas em recipientes sugere uma associação com bebês e crianças em contextos púnicos.


Do primeiro ao terceiro século d.C., o processo de cremação era mais comum no Norte da África. Não é possível afirmar até o momento se o tofete era um cemitério ou uma área de sacrifícios, pois nenhuma necrópole de adultos foi localizada.


A tipologia cerâmica das urnas  encontradas em Zita sugere que o tofete foi usado por pelo menos 150 anos. Ele foi mantido como um espaço sagrado mesmo após o término dos sepultamentos e permaneceu intacto até os dias atuais. Em alguns casos, uma camada de areia foi colocada no fundo da urna, ou a cova foi cuidadosamente revestida com fragmentos de cerâmica; em outros sepultamentos, o cuidado com que os restos mortais foram colocados nas urnas é demonstrado pela integridade dos frágeis ossos cremados.


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