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Parte 1 – Das pragas bíblicas à Peste de Atenas

há 3 dias
3 min de leitura

HISTÓRIA E CULTURA



Este artigo faz parte da série “Breve História das Pandemias”.


Ao longo de quatro posts, vamos percorrer os principais surtos de doenças infecciosas que marcaram a humanidade — das pragas bíblicas até as pandemias do século XXI.

Neste primeiro capítulo, começamos pelas narrativas religiosas e pela misteriosa Peste de Atenas (430 a.C.), um dos relatos epidemiológicos mais antigos da história.


Há consenso entre os pesquisadores e estudiosos de que poucos eventos moldaram nossas sociedades e culturas como os surtos de doenças infecciosas; no entanto, não é dada a devida atenção a esses fenômenos nas ciências sociais comportamentais.


Ao longo de sua história, a humanidade tem sofrido com surtos pandêmicos que tiveram efeitos profundos e duradouros. Esses eventos moldaram os aspectos econômicos, políticos e sociais, decidiram os rumos de guerras e dizimaram populações inteiras, mas, paradoxalmente, abriram caminho para inovações e avanços nas ciências, na economia e nos sistemas políticos.


Certamente, os exemplos mais conhecidos de pragas já registrados são aqueles mencionados no Antigo Testamento. O livro do Êxodo (7–11) descreve uma série de dez pragas que atingiram o Egito antes que os israelitas, mantidos em escravidão pelo faraó, fossem finalmente libertados.


No entanto, somente algumas delas são claramente de natureza infecciosa. Doenças em animais, piolhos, furúnculos e as mortes dos primogênitos provavelmente representam uma variedade de infecções.


No contexto bíblico, as pragas são os marcos da existência humana. O capítulo 16 de Apocalipse (ou Livro das Revelações) descreve o momento em que sete anjos derramam as sete taças da ira de Deus sobre a Terra, algumas delas contendo pragas provavelmente infecciosas. Os eventos são considerados o ciclo final e mais intenso de julgamentos divinos do livro.


“E foi o primeiro, e derramou a sua taça sobre a terra, e recaiu uma fétida e dolorosa ferida sobre os homens que tinham a marca da besta e sobre aqueles que adoravam a sua imagem.” (Apocalipse 16:2).


Ao longo da história, temos registros de sucessivas pandemias que moldaram as sociedades, inclusive influenciando as bases das ciências da saúde modernas.


A Peste de Atenas (430 a.C.)

Historicamente documentada, a peste ateniense é um evento que ocorreu entre 430 e 426 a.C., durante a Guerra do Peloponeso. Tucídides, um historiador grego sobrevivente da praga, descreve a epidemia em sua História da Guerra do Peloponeso. Segundo ele, a peste ateniense se originou na Etiópia e, de lá, se espalhou pelo Egito e pela Grécia. Os sintomas iniciais incluíam conjuntivite, dores de cabeça, erupção cutânea por todo o corpo e febre.


As vítimas da peste ateniense sofriam de cólicas estomacais extremamente dolorosas, tossiam sangue e tinham episódios de vômitos. A peste levava à morte no sétimo ou oitavo dia de infecção. Aquelas pessoas que sobreviviam a essa fase podiam sofrer de paralisia parcial, cegueira ou amnésia pelo resto da vida. Frequentemente, os médicos e outros profissionais da saúde contraíam a peste e morriam com aqueles que tentavam salvar. O desespero em Atenas levou a população a tornar-se indiferente às leis dos homens e dos deuses.


Como os atenienses viviam tempos de guerra, a superlotação ajudou a espalhar rapidamente a doença, matando dezenas de milhares, incluindo Péricles, o líder de Atenas.


A peste de Atenas causou a morte de mais de 25% da população. A causa do surto não foi claramente determinada, mas a febre tifoide foi apontada como uma provável culpada. No entanto, surgiu em 1996 uma teoria, proposta por P. E. Olson e outros epidemiologistas, que consideram a causa como sendo a febre hemorrágica do vírus Ebola.


Continua na Parte 2

No próximo post da série, vamos avançar alguns séculos e conhecer duas grandes pandemias do Império Romano: a Peste Antonina e a Peste de Justiniano.

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